quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

açafrão

Estava um pouco frio naquele fevereiro e mesmo enciumado por encontrar ela no bar com os amigos, ele deixou ela usando a blusa dele. Disse que voltaria dali uns quarenta minutos e pegaria a blusa. Ela disse que sim, e quando ele saiu, pegou um papel em cima da mesa, rabiscou um bilhete romântico e enfiou no bolso da jaqueta.

Do outro lado da mesa, seu amigo olhou sem entender. Ela respondeu que era seu jeito de fazer as coisas. Uma hora qualquer, longe dela, ele enfiaria a mão no bolso e receberia do nada um eu te amo. O olhar do amigo era doce e verde, e alguns meses depois ele encontraria um bilhete com uma margarida rabiscada e um coração quando abrisse o estojo.Naquela hora ele entendeu, e o sorriso dele valeu não o dia, mas os três anos seguintes.

Na verdade, ela era uma mulher muito prática, que adoraria que os homens a tratassem daquele jeito. Sabendo ser improvável ou impossível, começou a ser assim para as outras pessoas. Surpreendeu cada garoto depois daqueles dois, com uma garrafa de vinho em plena quarta feira, ou um cravo vermelho guardado dentro do maço de cigarros.

Uma vez, comprou uma caixa de bombons e distribuiu para todos os casais desconhecidos que encontrou na rua.


Comprou presentes e mandou cartões para amigas e amigos que estavam sozinhos (e infelizes com isso) no dia dos namorados.


Com o tempo, ela foi se perdendo de si. Um pouco de cinismo parece acompanhar a virada dos vinte anos. Saber que não entendiam também a incomodava.

Os "atos aleatórios de gentileza" romântica foram ficando mais raros conforme o tempo passava e ela ficava mais velha, mais cinza e mais fechada.

Mas aquilo ainda morava dentro dela. E no dia 14 de fevereiro, no monitor do micro, dentro do guarda roupa, no espelho do banheiro, apareciam eventuais cartões.

Naquela noite, ela teve um sonho de açafrão. Um sonho aliás, todo em azul, verde e açafrão. E despertou com o estranho desejo de imprimir centenas de cartões para o valentines day e enviar pelo correio para endereços desconhecidos.

Um comentário:

Diannus do Nemi disse...

Adorei a proposta do blog! Muito legal!

Bençãos dAquela Nascida do Mar.
Abraços.